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ACUPUNTURA

A Acupuntura é uma das especialidades da Medicina Tradicional Chinesa e apresenta muitas centenas de anos de evolução na China. Os textos mais antigos referem-se a dinastia Han, a partir do século II a.C.. Os mais importantes são o Nei Ching e o Nan Ching onde esta racionalidade oriental começou a ser descrita de forma sistemática. No século VI da nossa era a acupuntura migrou para o Japão e Coreia levados pelos monges chineses que viajavam para transmitir a mensagem de Sidartha Gautama, o Buda ( literalmente o iluminado). Nestes países orientais a técnica desenvolveu em escolas singulares, distintas da forma original chinesa,  o que enriqueceu ainda mais a evolução da acupuntura no oriente.

O Objetivo da acupuntura é promover a circulação adequada de Qi ( energia) e Xue ( sangue) nos meridianos energéticos ( canais e colaterais). Com este objetivo faz-se um estímulo nos pontos dos meridianos através  de agulhas ou calor ( moxabustão) que ira melhorar toda a circulação energética e também promoverá o equilíbrio das forças Yin ( energia simbolizada pela lua: noite, frio, passividade, e quietude ) e as forças Yang ( energia simbolizada pelo sol: dia,calor, atividade e agitação). A diferença na abordagem é que a Medicina Oriental valoriza mais a pessoa do que a doença. Foi o desequilíbrio que levou aquele indivíduo ao adoecimento e isto não ocorreu de um dia para o outro mas pode ser uma evolução de vários anos de desarmonia.

Modernamente a acupuntura vem sendo pesquisada, tanto no oriente como no ocidente, demonstrando evidências incontestáveis de sua eficácia. O estímulo das agulhas promove a liberação de substâncias com ação analgésica ( neuropeptídeos ) que explicariam a ação da acupuntura nas quadros dolorosos e doenças inflamatórias. Segundo a literatura 70 a 80 % dos pacientes respondem ao tratamento com acupuntura. Existem pacientes que apresentam respostas excelentes porem outros nem tanto. Normalmente indicamos 10 sessões de acupuntura, 2 vezes na semana, para observarmos o resultado terapêutico e avaliarmos a necessidade de continuidade ou não do tratamento.

INDICAÇÕES DO TRATAMENTO COM ACUPUNTURA PELA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE – OMS

1-Pediatria: diarréia, convulsão e obesidade infantil.

2- Ginecologia: TPM, cólica menstrual, cistite, obstrução da trompa, ovário policístico, infertilidade e menopausa.

3- Psiquiatria: depressão, ansiedade, insônia e estresse.

4-  Neurologia: cefaleias (dor de cabeça), tonteira, neuralgia do trigêmeo, neuralgias, disfunção da ATM, paralisia facial e AVC ( ataque vascular cerebral).

5- Otorrinolaringologia: zumbido, dor de garganta, amigdalite, rinite e sinusite.

6- Gastro-enterologia: dor abdominal, cólica intestinal, náuseas e vômitos, diarréia, constipação, hiperacidez, gastrite crônica, ulcera péptica, síndrome do intestino irritável, enterite e hemorroidas.

7- Cardiologia: doença coronariana, angina pectoris, hipertensão arterial e hipotensão arterial.

8- Dependência química: alcoolismo, tabagismo, dependência a cocaína e heroína.

9- Dermatologia: acne, herpes zoster e psoríase.

10-Pneumologia: bronquite e asma.

11-Reumatologia: distensão muscular, dor cervical, dor aguda na coluna vertebral, dor lombar, dor ciática, dor no joelho, fibromialgia, artrose, artrite reumatóide e gota.

12-Obstetrícia:  enjoo, correção da posição fetal, indução ao parto, dor no parto, lactação deficiente.

13-Endocrinologia: obesidade e diabetes mellitus.

Associado a terapêutica com acupuntura recomendamos a fitoterapia ( uso terapêutico das plantas medicinais)  e uma dieta equilibrada e saudável. Na visão oriental o estilo de vida do paciente é fundamental no resultado terapêutico  do tratamento. Observamos que não adianta indicarmos a melhor acupuntura e fitoterapia se o paciente tem hábitos deletérios a sua saúde incluindo aqui sua rotina diária e alimentação.  Os pilares da nossa abordagem integrativa e individualizada depende do diagnóstico do desequilíbrio do paciente. Esta leitura é realizada pela história detalhada e exame físico minucioso.  Nesta abordagem integrativa utilizamos as seguintes ferramentas:

  1. Fitoterapia ( utilização terapêutica das plantas medicinais)
  2. Acupuntura
  3. Dieta equilibrada e saudável
  4. Atividade física moderada e orientada
  5. Meditação ( orientação sobre introspecção e autoconhecimento)
  6. Recomendação com relação a rotina diária de hábitos saudáveis ( estilo de vida)

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

O NAN CHING: UMA EVOLUÇÃO NA PRÁTICA DA ACUPUNTURA

O nome Nan Ching foi traduzido como “Um Clássico Sobre Questões Difíceis”. Atualmente a maioria dos pesquisadores afirma que o livro tenha sido compilado entre os séculos I e II da nossa era. Citamos as palavras de Unschuld na sua tradução do clássico

“…eu tenho me referido ao Nan Ching como um trabalho do primeiro ou início do segundo século D C; pode inclusive ter sido escrito uma poucas décadas anterior ao primeiro século D C. Eu concordo com a opinião que o Shan Han Lun foi influenciado pelo Nan Ching, e eu concordo com aqueles comentadores que viram uma significante lacuna entre a linguagem e os conceitos utilizados no Nan Ching e aqueles encontrados no Nei Ching, uma lacuna que sinaliza desenvolvimento assim como diferença. Eu estou convencido que o Nan Ching foi compilado para superar a heterogeneidade e a natureza não sistemática dos conceitos das escolas médicas do Huang Chi Nei Ching, e especialmente para desenhar as conseqüências conceituais e clínicas da descoberta da circulação da influência-vapor no organismo. Em minha opinião os textos do Nei Ching sobre agulhamento e diagnóstico revelam um estágio de desenvolvimento que é maior que aquele dos textos desenterrados das tumbas de Ma Wan Dui (168 A C) e também maior que aqueles indicados na biografia de Shun-yu I (216 a 150 A C) no Shih-chi ( compilado em 90 A C ). Logo os textos do Nei Ching não podem ter sido compilados antes do segundo ou primeiro século A C ….O Nan Ching, então deve ter sido escrito após o aparecimento dos textos do Nei Ching sobre agulhamento e diagnóstico pelos meridianos, e antes do aparecimento do Shang- Han Lun no segundo século …” ( Unschuld, 1986:34)

Os capítulos do Nan Ching são dispostos de maneira variada e não existe um consenso dos historiadores da Medicina Chinesa sobre o autor do livro. O Nan Ching é considerado uma evolução do Nei Ching através do amadurecimento da medicina de correspondência sistemática onde os aspectos da prática médica são integrados nas doutrinas do Yin-Yang e das Cinco Fases ou Elementos. Sobre a contribuição do Nan Ching para o desenvolvimento da Medicina Chinesa; Birch e Felt afirmam:

“Embora as farmacoterapias tradicionais chinesas não estivessem ainda integradas dentro do paradigma do Qi até o século XII, o Nan Ching marca um momento em que toda a heterogeneidade do Nei Ching já havia se dissipado. As pedras preciosas das idéias já estavam selecionadas, lapidadas e reluzentes e, mesmo que o acabamento não estivesse totalmente concluído, a extensão e o valor deste tesouro eram claros. Embora muitos termos do Nei Ching ainda permaneçam, são usados de forma diferente. Nota-se a completa ausência da demonologia e da magia. Semelhante ao Nei Ching a acupuntura é a prescrição principal adotada, ou melhor é a única forma adotada como tratamento. Só que  aqui se abre um novo caminho: a escolha dos acupontos baseia-se na sistematização  do conceito da circulação do Qi.” (Birch e Felt, 2002: 23)

O desconhecido autor do Nan Ching sistematizou uma imagem do organismo humano. Este sistema está conectado internamente por meio de influências que se comportam de acordo com os princípios do Yin-Yang e das 5 Fases  desta forma propiciam uma infinita variedade de opções terapêuticas, que são selecionadas por um método racional de diagnóstico: a palpação do pulso ou pulsologia chinesa que permite investigar todos os dados importantes para formar uma imagem mental do estado do paciente e seus desequilíbrios. Depois do Nan Ching a medicina se libertou das influências da religião ou seja abraçou o pensamento que o ser humano está conectado com a natureza através do eterno fluxo do Qi.

   

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

Huang Ti Nei Ching: O Primeiro Texto Sobre Acupuntura

 O Huang Ti Nei Ching ou o Classico de Medicina Interna do Imperador Amarelo é uma compilação, concluída provavelmente entre o século II e I A C, feita através de um suposto dialogo entre o lendário Imperador Amarelo (2698 a 2598 A C ) e seu ministro Qi Bo. O livro é dividido em duas partes: O Su Wen e o Ling Shu. Birch e Felt afirmam:

“ Há duas seções cada uma composta de múltiplos livros: o Su Wen ou “Questões Fundamentais” e o Ling Shu ou “Eixo/Pivo Espiritual”. No primeiro livro a conversa elucida alguns pontos sobre a teoria médica. O outro livro é essencialmente um manual de acupuntura. Tradicionalmente a data atribuída a este livro é o período entre os anos 2698 a 2599 A C, período também atribuído ao Imperador Amarelo, mas os estudiosos do assunto concordam atualmente que o Nei Ching foi concluído provavelmente entre o século II e o século I A C.” (Birch e Felt, 2002:19)

    O “Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo” na verdade é uma compilação do conhecimento médico desenvolvido na China, por vários autores, até o século I A C.A versão do tratado que chegou aos nossos dias foi escrita por Wang Ping no século VIII da nossa era. No prefácio do Nei Ching, Wang Ping escreve:

“ Qualquer um que deseje subir a montanha Tai não pode faze-lo sem uma estrada; qualquer um que deseje viajar ate o Japão não pode chegar lá sem um barco. Então eu investiguei, cuidadosamente, os textos originais  e visitei extensivamente as pessoas que podiam me ajudar. Após doze anos de estudo, agora eu finalmente entendi os princípios. Eu investiguei os pontos corretos e os pontos errados e o resultado satisfaz o meu antigo desejo. Eu recebi o segredo original, as edições escondidas do mestre mais importante, sua excelência Zhang Zhong Jin na casa de meu professor Guo Zi Zhai, a escrita neste texto é muito clara, os princípios e a razão do seu conteúdo são muito completos; E ao utilizá-lo com o propósito de interpretação, muitos pontos duvidosos desapareceram como o gelo derretido. Como eu tenho medo que estes textos possam desaparecer em minhas mãos e como conseqüência o material de ensino irá desaparecer, eu escrevi um comentário com o objetivo de perpetua-lo eternamente. Eu combinei isto com o texto em minhas posses em um livro de 81 capitulos e 24 rolos. A minha intenção é investigar a calda para entender a cabeça, investigar os comentários para entender o clássico, desenvolver o conhecimento médico para os homens jovens e espalhar largamente os princípios mais elevados.”  ( Wang Ping, século VIII: 5)

           

     Este comentário de Wang Ping, do século VIII da nossa era, demonstra a importância do Huang Ti Nei Ching dentro da história da Medicina Chinesa, com certeza é um texto que mostra a evolução do pensamento médico na China desde Ma Wan Tui, manuscrito mais antigo que não cita a acupuntura nem os acupontos. Outra interessante observação de Wang Ping foi sobre Zhang Zhong Jin, médico do final da dinastia Han, que escreveu dois trabalhos no século II da nossa era, aqui ele é denominado ‘o mestre mais importante sua excelência Zhang Zhong Jin.’O que confirma a sua grande fama posterior a dinastia Han. Nas palavras de Birch e Felt podemos compreender a importância do Huang Ti Nei Ching dentro da evolução dos conceitos da  medicina mágico-demonologica para a medicina de correspondência sistemática:

“A contribuição dada pelo texto e seu lugar na historia são claras: não pode ser nada menos que a gênese da medicina na China, mesmo que houvessem textos e fatos mais importantes, que nunca saberemos. Simboliza o momento em que as idéias essenciais sobre doença e tratamento alcançam a maturidade. A doença já não significava mais uma das muitas  catástrofes para as quais o ser humano buscava o socorro sobrenatural. A medicina se tornara um esforço humano dissociado da religião. O texto não apenas congregou em uma única fonte os aspectos mais fundamentais da medicina de correspondência sistemática, como também chamou a atenção para a necessidade de ter tratamentos distintos para sintomas individuais, idéia que permanece ate o presente. Como pedras não lapidadas, as idéias possuem bordas ásperas e ainda precisam ser polidas e apresentadas de forma mais elegante. Contudo os 162 artigos do Nei Ching mostram não apenas a absorção e extensão da teoria do Yin-Yang e a incorporação dos conceito relativamente mais recente dos cinco elementos, mas também focaliza os sintomas individuais como sendo somáticos em vez de serem efeitos sobrenaturais. Pela importância desta obra, o Huang Ti Nei Ching, não é rigorosamente estruturado nem sistemático. O livro fica mais bem compreendido como sendo a primeira mais antiga tentativa de reunir a arte da medicina a partir das várias escolas de pensamento médico que sobreviveram ate o período da dinastia Han. Por tanto o Nei Ching nos permite dar uma olhada nas bases da Medicina Tradicional Chinesa em relação a anatomia, fisiologia e as raízes das teorias da patologia e seu tratamento. O livro é uma janela que se abre para a medicina de correspondência sistemática da forma como esta amadureceu; um período de transição em que a acupuntura havia se tornado a terapia mais importante e os conceitos da correspondência sistemática haviam assumido o papel principal. No entanto nem as técnicas nem as bases do conceito haviam alcançado a elaboração final.”(Birch e Frelt, 2002: 19)

           O Nei Ching descreve os 12 meridianos principais bilateralmente e 295 acupontos. Estes canais conduzem o Qi, substancia que é descrita em parte como um produto do corpo, parte como produto do ambiente. Os meridianos ou Jing relacionam-se com os 11 orgãos internos: os cinco zang eram o coração, o fígado, o baço, os pulmões e os rins e os seis fu eram vesícula biliar, o estomago, o intestino grosso, o intestino delgado, a bexiga e o triplo aquecedor uma entidade não física ligada a uma grande variedade de funções corporais. A principal forma de diagnostico proposta era o exame do pulso modernamente denominado  de “pulsologia chinesa”. Ilza Veith no seu estudo do Nei Ching comenta:

 

“ O principal meio de diagnostico empregado no Nei Ching é o exame do pulso. Todos os outros métodos de determinar as doenças são somente subsidiários a palpação e utilizados principalmente em conexão com ela. A teoria do pulso é baseado sobre os vários estágios de interação entre o Yin-Yang e sobre as crasias e discrasias dos cinco elementos. O correto equilíbrio do Yin-Yang e a mistura harmoniosa dos elementos leva a saúde; a falta de equilíbrio e a desarmonia causa doença. O sistema de palpação proposto pelo Nei Ching, acreditava-se ser eficaz no diagnóstico da natureza e localização de qualquer tipo de doença. A base da sua prática era a crença que o pulso consistia na verdade de seis pulsos, três conjuntos de pulsos em cada mão, cada um conectado com uma parte do corpo em particular, e capaz de registrar a menor alteração patológica no corpo.” (Veith, 1972: 42)

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ e presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.